Ter
criança em casa faz com que eu me lembre da minha infância com frequência. Não
me lembro de quase nada da minha primeira infância, mas tenho fortes e marcantes lembranças
a partir dos meus sete ou oito anos de idade.
Era
tudo tão diferente... Nem melhor, nem pior, diferente! Pensando melhor, quase
tudo. Como a maior parte das crianças de hoje, eu também tinha um dia
atribulado com atividades extracurriculares (ballet, natação, inglês), estudava
em uma escola que exigia bastante dos alunos e adorava brincar.
Taí
a diferença: brincar. As brincadeiras eram muito diferentes, começava que eu
tinha meus “amigos da rua”. Sim, eu brincava na rua. Todas as outras crianças
da minha rua brincavam na rua...
Lembrando
que no final da década de 70 e no começo dos anos 80 o número de carros, de
pessoas e os índices de violência eram infinitamente menores dos de hoje em
dia.
Nós,
as meninas, tínhamos as brincadeiras típicas de meninas com bonecas, que
incluíam seus batizados e festas de aniversário com direito a madrinhas, bolos
e docinhos, mas também brincávamos com os meninos.
E
era com os meninos que a brincadeira ia para a rua, patinávamos, andávamos de
bicicleta, jogávamos taco, futebol e vôlei com direito a rede montada no meio
de uma rua perpendicular a nossa e sem saída, que chamávamos de “vilinha”.
Nossa
rua era de nosso domínio, conhecíamos todos os moradores dos prédios e das
casas e à medida que íamos crescendo, íamos ampliando nossos domínios. Até que alguns
de nós, inclusive eu, se misturaram com os outros da rua de trás e, dessa
maneira, passamos a ter mais amigos e conhecíamos o amigo do amigo, a prima da
amiga, a irmã do amigo...
Inevitavelmente,
começaram os namoros e a roda do eu gosto dele, mas ele gosta dela e ela gosta
daquele outro... Uma amiga deixava de falar com a outra por conta de algum
garoto, por ciúme de uma nova amiga da escola ou porque não foi convidada para
uma festa. Os meninos não gostavam quando garotos desconhecidos vinham na nossa
rua procurando alguma das meninas, afinal de contas, aquela rua e tudo que
estava contido nela, era deles!
E
assim foi a minha infância e minha adolescência, na rua! E nossos pais, das
janelas nos vigiavam, nos controlavam e na falta de telefone celular, muitas vezes
nos chamavam para jantar ou impiedosamente anunciavam que “está na hora de
subir!!!”, o que a gente odiava ouvir.
Com
o passar do tempo, cada um de nós tomou um rumo, não tenho contato com quase
mais ninguém, mas guardo no coração meus “amigos da rua” e “minha rua”, onde
vivi por anos e fui muito feliz.
Pensando
melhor... a diferença entre a minha infância e a do meu filho não é o tipo de
brincadeira, é a liberdade que eu tive quando criança, andando livremente pela
minha rua e arredores, coisa que não teria coragem de deixa-lo fazer, mesmo se
ele fosse maior (ele tem seis anos), nem se a rua que eu moro hoje fosse minha.
Parece que este texto foi escrito por mim e para todos da minha geração Perfeito relato !
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