Pelo que me lembro, fui uma criança e uma adolescente
regular, do tipo que não deu muito trabalho para os pais. Tinha meus amigos,
minhas atividades, meus programas, não era muito fã dos estudos, mas estava
quase sempre ali na média, na média de tudo, em termos gerais era bem normal.
Algumas características me acompanham desde a
infância, sou sarrista e debochada, apelidava um colega por algum traço físico
marcante (hoje poderia ser considerado bullying!!!), converso com todo mundo,
no colégio, por exemplo, tinha amizade com os descolados, com os nerds, com os
esportistas, sem ser nada disso, nem descolada, nem nerd, nem esportista...
Já no final da adolescência, um traço marcante da
minha personalidade veio à tona, sou questionadora e como diria meu pai
“bocuda”, falo além do que deveria, mas não além das minhas convicções. Sei que
isso já me prejudicou bastante e, infelizmente, tenho que me controlar.
Esse mix de ingredientes: deboche, papo fácil, indagadora
e “bocuda”, mais uma pitada de muita opinião própria, pode ser mal visto.
Tanto que certa vez fui chamada de “laranja podre” e,
para meu próprio espanto, não me ofendi, ao contrário, achei divertidíssimo ser
chamada de “laranja podre”. E eu sabia exatamente o porquê estava sendo chamada
assim.
Era porque enquanto todas as laranjas faziam apenas
suco de laranja, eu fazia suco, geléia e compota de laranja. Daí o que fazer
com a geléia e com a compota? Como tratar uma laranja que se comporta de
maneira diferente? E se as outras laranjas resolverem diversificar também?
Talvez, por medo ou por insegurança, seja mais fácil e
comum rejeitar ou rotular negativamente o que não se conhece.
Então, ser laranja podre, para mim, passou a ser um
elogio. Não significava aquela que contaminava a caixa com seus fungos, mas
aquela que se destacava na caixa por ser diferente.
No meio de tanta notícia de corrupção, violência e de
um mundo caótico, optei por continuar apelidando as pessoas, falando com todo
mundo, indagando tudo aquilo que desconheço ou que não concordo e dando minha
opinião, não importa se será ouvida ou implementada, mas não me calo porque
alguém acha que devo me comportar assim ou assado.
Adoro ser uma laranja podre!!!
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