quarta-feira, 21 de agosto de 2013

SE ESSA RUA FOSSE MINHA

Ter criança em casa faz com que eu me lembre da minha infância com frequência. Não me lembro de quase nada da minha primeira infância, mas tenho fortes e marcantes lembranças a partir dos meus sete ou oito anos de idade.

Era tudo tão diferente... Nem melhor, nem pior, diferente! Pensando melhor, quase tudo. Como a maior parte das crianças de hoje, eu também tinha um dia atribulado com atividades extracurriculares (ballet, natação, inglês), estudava em uma escola que exigia bastante dos alunos e adorava brincar.

Taí a diferença: brincar. As brincadeiras eram muito diferentes, começava que eu tinha meus “amigos da rua”. Sim, eu brincava na rua. Todas as outras crianças da minha rua brincavam na rua...

Lembrando que no final da década de 70 e no começo dos anos 80 o número de carros, de pessoas e os índices de violência eram infinitamente menores dos de hoje em dia.

Nós, as meninas, tínhamos as brincadeiras típicas de meninas com bonecas, que incluíam seus batizados e festas de aniversário com direito a madrinhas, bolos e docinhos, mas também brincávamos com os meninos.

E era com os meninos que a brincadeira ia para a rua, patinávamos, andávamos de bicicleta, jogávamos taco, futebol e vôlei com direito a rede montada no meio de uma rua perpendicular a nossa e sem saída, que chamávamos de “vilinha”.

Nossa rua era de nosso domínio, conhecíamos todos os moradores dos prédios e das casas e à medida que íamos crescendo, íamos ampliando nossos domínios. Até que alguns de nós, inclusive eu, se misturaram com os outros da rua de trás e, dessa maneira, passamos a ter mais amigos e conhecíamos o amigo do amigo, a prima da amiga, a irmã do amigo...

Inevitavelmente, começaram os namoros e a roda do eu gosto dele, mas ele gosta dela e ela gosta daquele outro... Uma amiga deixava de falar com a outra por conta de algum garoto, por ciúme de uma nova amiga da escola ou porque não foi convidada para uma festa. Os meninos não gostavam quando garotos desconhecidos vinham na nossa rua procurando alguma das meninas, afinal de contas, aquela rua e tudo que estava contido nela, era deles!

E assim foi a minha infância e minha adolescência, na rua! E nossos pais, das janelas nos vigiavam, nos controlavam e na falta de telefone celular, muitas vezes nos chamavam para jantar ou impiedosamente anunciavam que “está na hora de subir!!!”, o que a gente odiava ouvir.

Com o passar do tempo, cada um de nós tomou um rumo, não tenho contato com quase mais ninguém, mas guardo no coração meus “amigos da rua” e “minha rua”, onde vivi por anos e fui muito feliz.


Pensando melhor... a diferença entre a minha infância e a do meu filho não é o tipo de brincadeira, é a liberdade que eu tive quando criança, andando livremente pela minha rua e arredores, coisa que não teria coragem de deixa-lo fazer, mesmo se ele fosse maior (ele tem seis anos), nem se a rua que eu moro hoje fosse minha.

Um comentário:

  1. Parece que este texto foi escrito por mim e para todos da minha geração Perfeito relato !

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